Relato de parto humanizado – Em uma aldeia no Xingu

O Waidê foi concebido em junho, no ano de 2016.

Estávamos morando na aldeia Aribaru com o povo Yudjá há 4 dias.

A gestação aconteceu durante meu trabalho como coordenadora pedagógica da escola indígena que funciona lá, uma escola estadual do município de São José do Xingu, Mato Grosso.

A cada mês fazíamos uma viagem até Cuiabá, onde o João Gilberto, papai do Waidê e da Mariana, trabalhava com uma comunidade quilombola.

A partir do 8° mês ficamos dois meses na cidade para as festas de final de ano e para preparar o parto. O acompanhamento obstétrico foi feito em Alta Floresta, para onde íamos com frequência visitar os avós paternos da Mariana e do Waidê retornando no caminho para a aldeia.

No nono mês, antes de voltar pra aldeia nos vimos numa situação desafiadora. A parteira combinada não confirmou a presença. Fiquei muito preocupada mas, respirei fundo e pensei: pra tudo há uma solução. Waidê haveria de nascer em casa, com o mesmo direito a uma recepção natural e calorosa que teve sua irmã, nascida há 2 anos e meio. Lancei uma mensagem de socorro na internet para amigos em busca de uma parteira para nos atender no Xingu e me surpreendi com a quantidade de pessoas e equipes interessadas em ter a oportunidade de viver conosco esse momento inesquecível e único.

De tantos contatos e conversas, foi escolhida uma equipe muito especial. Duas profissionais de Campinas, a Jéssica Cirelli (obstetriz) e a Tatiana Ramos (enfermeira) se dispuseram com tanto interesse e demonstrando seriedade, experiência, carinho e o devido respeito a essa vivência familiar e cultural que não pudemos pensar em pessoas mais merecedoras desse presente. Elas foram sensacionais. Aceitaram as condições de viver essa aventura e de nos dar esse apoio. Elas chegaram na aldeia dia 23 de fevereiro de 2017, na minha 37a semana de gestação.

O tempo foi passando e apenas alguns pequenos sinais me animavam quanto a chegada do meu bebê tão esperado. Toda semana tínhamos uma consulta auscultando o coração dele, aferindo minha pressão, medindo a barriga. Tivemos uma reunião muito animada e produtiva com as mulheres Yudjá que trocaram informações sobre a maneira de parir delas em comparação com a forma que as parteiras trabalham nos partos domiciliares na cidade. Foi uma troca de saberes de grande riqueza cultural. Então entramos na 39a semana e minha ansiedade era transparente já que combinamos que as parteiras, agora também amigas, voltariam pra cidade no dia 17 de março, quando estaríamos nas 40 semanas de gestação. Eu não acreditava que fosse chegar às 40, quanto mais pensar na possibilidade de passar disso. Mas como doula e como mãe prevenida eu tinha que ter um plano B. Nosso plano era esperar. Mas sabíamos que sem parteira, após as 41 semanas teríamos que nos locomover de aviãozinho para Alta Floresta e rezar pra conseguir um parto hospitalar humanizado lá. Isso estava bem fora do meu verdadeiro sonho. Então fiquei realmente preocupada. A solução veio das parteiras que estavam me preparando, também preocupadas. Elas faziam exercícios, alongamentos e manobras com o rebozo, tudo pronto para receber meu pequenino. Ele estava encaixado, cefálico e dava empurrões bem fortes de madrugada como se dissesse: quero sair! Estou pronto!

Era isso que eu sentia. Estávamos prontos para recebê-lo e ele pronto para vir. Já tinha rede feita de tear, tipóia de tear, arco e flechas, enfeites, oca arrumadinha, só faltava eu entrar em trabalho de parto. A lua cheia estava linda, o pico seria no dia 12 às 23:55h. Na noite anterior eu dancei e cantei pra lua cheia e pedi sua benção ao nascimento do Waidê. Acordei no dia 12 decidida a pedir uma indução mecânica. As meninas haviam proposto fazer na segunda, mas eu senti que devia fazer no domingo de manhã. Meu amado esposo e super conectado comigo concordou. A Jéssica fez o descolamento da bolsa em dois minutos e depois do almoço eu já comecei a sentir cólicas leves. Funcionou! Que alegria eu sentia com as cólicas se intensificando a cada hora do dia. Meu coração se encheu de contentamento e eu sabia que amanheceria com meu filho nos braços.

Fiz um pão caseiro e comi me agachando durante as contrações. A noite chegou e eu dancei tentando aliviar as tensões do corpo, me abrindo para que viesse à luz meu filho amado.

Me despedi desejando boa noite a Jé e a Tati até que eu as chamasse em meu auxílio. A única que dormiu foi minha filha Mariana. O papai a levou para a oca de uns amigos vizinhos já que eu comecei a vocalizar durante as contrações. Às 19:30h elas vinham a cada 5 minutos. Depois a cada 3 minutos e às 22:30h chamei as meninas. Elas me tranquilizaram, ouvimos o coração do Waidê e estava tudo bem. Na hora seguinte eu quis me levantar do conforto da rede enquanto elas e meu esposo admiravam o esplendor da lua lá fora. Eu estava embriagada de hormônios. Já tinha lido todas as lindas mensagens de força que guardei do chá de benção e ouvia música sentindo o cheiro do incenso de Palo Santo. Chamei meu companheiro e logo depois as parteiras perceberam que estava chegando a hora e entraram também. Me apoiei no cobertor amarrado no teto da oca e me apoiei nos braços do meu amado esposo. Mas minhas pernas estavam tomadas de ocitocina também e eu pedi a banqueta de parto. Chegamos ao período expulsivo do qual me lembro de sentir aquela força já conhecida. A força de todas as mães, das minhas ancestrais, da minha Divina Mãe, da Mãe de todos nós a Virgem da Conceição, a força da Mãe Natureza presente em minhas entranhas. Ouvi uma oração, fiz uma oração, a vontade de empurrar veio cada vez mais forte e eu fiz o que sabia fazer, meu corpo se abriu e consentiu a passagem do meu bebê. Senti o círculo de fogo, desta vez sem estranhamento, chamei meu filho e senti sua cabeça descendo devagar. Respirei fundo e em mais quatro contrações senti sua passagem se completar. Do outro lado, a Tati filmava a Jéssica recepcionando com mãos firmes e experientes a chegada suave de um bebê empelicado com a alça do cordão umbilical no pescoço.

Ela me entregou o Waidê e nós o saudamos com alegria. Senti tanta emoção que não consegui chorar. O acolhi em meu colo e cantei pra ele enquanto ele dormia, sem chorar, sem se dar conta de que havia nascido. No meio da canção veio aquela contração forte e saiu a placenta. Um órgão tão bonito, a árvore da vida que enterramos e plantamos um pequizeiro em cima. Ela já apresentava sinais de maturidade assim como o Waidê que nasceu quase sem nada daquela cerinha que envolve os bebês enquanto estão na barriga, e de unhas compridas. Ele nasceu tão parecido com a irmã…

Depois que a placenta saiu vieram as cenas do próximo capítulo, onde as minhas heroínas entraram em ação! Tive uma queda de pressão, repetindo o ocorrido no parto da Mariana. Dessa vez não desmaiei, as parteiras foram rápidas em seus procedimentos e me avisavam de cada um deles explicando o motivo respeitosamente. A Tati segurou o Waidê, enquanto a Jéssica e o João me colocaram na rede. Depois o Waidê voltou pro colo e veio direto pro peito. Só depois é que eu soube que a oca estava cheia dos nossos amigos indígenas.

Homens, mulheres e crianças vieram testemunhar aquele momento sublime. Só saíram quando eu já estava na rede. Waidê só tomou o primeiro banho na segunda manhã. Ele nasceu  exatamente à meia noite, dia 13/03 completando suas 10 luas cheias com plenitude assim como meu coração, pleno de um amor tão grandioso. A Mariana veio conhecer o irmão com um belo um belo sorriso quando acordou e disse que ele é lindo e que ela o ama.

 

Obrigada Arimila, por compartilhar este lindo e emocionante relato de parto com o Sisters & Mommies.

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PUBLICADO POR

"Clarice é mãe do Lucas, da Marina e da Alice. Mora no Rio de Janeiro, tem 36 anos e é publicitária."

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2 thoughts on “Relato de parto humanizado – Em uma aldeia no Xingu”

  1. Avatar Márcia milanez disse:

    Lindo demais. Parabéns pelo bebê. Mulher de coragem.

  2. Hello, after reading this amazing piece of writing i am too delighted to share my experience
    here with friends.

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